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A cada dia que passa, o público e o privado se misturam mais. Nós, jornalistas, com a desculpa de que temos de ter qualquer matéria, muitas vezes passamos por cima de atitudes éticas para conseguí-las. Na situação relatada a seguir, não vem ao caso discutir se o ator em questão está querendo aparecer ou não, se está exagerando ou não. Temos de discutir se o jornalismo está ou não fazendo seu papel. Se estamos, nós jornalistas, fazendo a coisa certa. E vocês, o que acham? Boa leitura?
Ator critica cobertura de paparazzi
Em suas aulas na disciplina “Técnicas de Reportagem”, o professor da PUC-Rio e repórter especial do Jornal do Brasil Israel Tabak costumava dizer que não existe jornalismo sensacionalista. “O jornalismo não pode ter sensacionalismo, então se for sensacionalista não é jornalismo”. Nesta terça-feira, o jornal O Globo publicou uma carta do ator Eduardo Moscovis intitulada “Respeitável Público”, em que protesta contra paparazzi que estariam tentando comprar pontos de observação próximo ao seu prédio para fotografar o quarto de suas filhas e do bebê que ainda não nasceu.
“O que é ser público? Aparecer em milhões de aparelhos de TV me torna pessoa reconhecida publicamente, mas o que isso quer dizer exatamente? Que devo acatar qualquer tipo de abordagem, educada ou não, a qualquer momento? Como devo agir quando percebo estar na mira de celulares com câmeras de altíssimo alcance e refinamento tecnológico?”, reclama o ator no texto.
Quem somos e Quem Acontece
A carta critica não apenas o estímulo ao “comportamento furtivo” dos fotógrafos, mas também ao fato de que seus vizinhos teriam afirmado que foram abordados por paparazzi para que deixassem que o quarto das filhas do ator fosse fotografado. “Devo ainda fechar as cortinas, ficar enclausurado porque pode ser que haja em algum apartamento próximo alguém empenhado em expor minha família?”. O texto termina com uma insinuação à revista Quem Acontece. “Somos especiais por morarmos num lugar tão maravilhoso [o Leblon]. Independente de QUEM somos”.
“Eu não sei por que ele achou ou acreditou que alguém daqui tenha feito esse tipo de coisa. Se alguém fez isso, em nome da Quem, essa pessoa certamente será punida”, explicou Ailin Aleixo, redatora-chefe da revista. De acordo com a jornalista, em nenhum momento o ator procurou a redação para reclamar.
Procurado pelo Comunique-se, Moscovis não foi encontrado. Nenhuma redação de revista sobre celebridades confirmou estar interessada no caso. “Não estamos atrás dele, não colocamos nenhum paparazzi nisso”, informou Denise Gianoglio, editora da Contigo, ao Comunique-se. Claudia Boechat, editora da Caras, não retornou os contatos para falar sobre o assunto.
Invasivo
“Não, na verdade, a gente tem uma política que se o cara não quer mostrar, eu não compro o material. Não temos paparazzi. Se o artista não quer divulgar, a gente deixa quieto”, explicou Ester Rocha, diretora de conteúdo do site O Fuxico. Ela afirma que para o site seria ruim invadir a privacidade dos artistas.
“Nada contra o trabalho dos paparazzi, mas o artista é nossa fonte. Se destratarmos ele, perdemos isso”, declara, frisando que a opção do site não é uma crítica aos fotógrafos de celebridade. “Acho que é um direito do artista dizer se quer aparecer ou não”.
A opinião se estende para outros veículos. Thami Nóbrega, do Babado, afirmou que jamais enviaria fotógrafos para pautas desse tipo. “Trabalhamos com agências que devem estar sempre alinhadas com as nossas diretrizes”, explica. “Seria antiético pagar um vizinho para fotografar a casa de alguém”.
Limites
Para Marcos Serra Lima, fotógrafo do Ego, os limites éticos e judiciais são visíveis. “Você não pode fazer uma foto do cara dentro de casa, mas se ele estiver na rua, sim. Alguém alugar um quarto para poder tirar fotos que, em tese, não poderiam ser publicadas por nenhum veículo", declara.
Apesar de dizerem o contrário, a cobertura de celebridades já invadiu esses limites mais de uma vez. Como nas fotos da atriz Giovanna Antonelli com seu filho, Pietro, logo após o nascimento do bebê, ou da atriz Isis Valverde, que foi intérprete da personagem Ana do Véu, da novela “Sinhá Moça” (TV Globo). Isis foi fotografada em sua varanda quando interpretava a personagem que não mostrava o rosto em parte da história.
Leia na íntegra a carta de Eduardo Moscovis:
"Respeitável público
Esse é um documento-desabafo, um pedido de ajuda, uma denúncia e/ou simplesmente um relato. Não quero parecer egoísta nem alheio a nossa crítica realidade, por isso peço que sejam tolerantes de acharem que o que me angustia é pouco ou de menor relevância diante de tantas barbaridades, injustiças e impunidades.
Necessito partilhar esse momento publicamente. Aliás, é sobre esse termo e suas várias interpretações que gostaria de discutir: o que é ser público? Aparecer em milhões de aparelhos de TV me torna pessoa reconhecida publicamente, mas o que isso quer dizer exatamente? Que devo acatar qualquer tipo de abordagem, educada ou não, a qualquer momento? Como devo agir quando percebo estar na mira de celulares com câmeras de altíssimo alcance e refinamento tecnológico?
'Tu não é publico? Paga esse preço', costumo ouvir.
O problema não é esse. OU pelo menos não é só esse. Não tem lógica destratar alguém que, de uma maneira educada, manifesta admiração pelo meu trabalho. Até porque minha função é exatamente mexer com o emocional dela. Mas as revistas especializadas (nisso?) oferecem um cachê (ou seria uma recompensa?) caso você, “mortal comum”, ao se deparar com um desses que são públicos (e são cada vez mais), bata uma foto. Essas revistas estimulam um comportamento furtivo, invasivo e desrespeitoso, incitando os leitores a serem um 'paparazzi' também. Como distinguir quem é o fã?
Sou morador do Leblon desde os 10 anos de idade. Adoro o bairro e o escolhi para desenvolver minha família. Quem mora aqui já esbarrou comigo a pé, de bicicleta, com minha mulher, meus pais, amigos, na praia, no calçadão, levando minhas filhas à escola, de chinelo, camiseta, short... Não me considero “estrela”, não me comporto como tal e tampouco me alimento dessa indústria.
Há pouco mais de um mês fui interceptado pelo meu vizinho dos fundos. Ele me contou ter sido abordado por fotógrafos, que lhe ofereceram dinheiro para deixar que fotografassem o quarto das minhas filhas e do bebê que vai nascer. Semana passada, a mãe de uma atriz e uma diretora de teatro, também vizinhas, me disseram ter recebido a mesma oferta de 'fotógrafos especializados'.
Me preocupo se pego a Linha Vermelha à noite, fico atento a motocicletas que se aproximam do meu carro e tenso ao ver uma blitz (será verdadeira?), fico receoso ao andar sete quarteirões e não cruzar com nenhum policial, não deixo o meu carro dormir na rua, etc. Ou seja, vivo as angústias e inseguranças de todo cidadão carioca.
Devo ainda fechar as cortinas, ficar enclausurado porque pode ser que haja em algum apartamento próximo alguém empenhado em expor minha família? Dentro da minha casa? Podem me fotografar com minhas filhas em qualquer lugar sem autorização? Podem mostrar o rosto delas? Mesmo menores? EU sou a “celebridade” e não elas!!!
Por que, quando sai a foto de um ser humano de 16 anos que arrastou um anjo inofensivo por 7km, o rosto dele é desfocado? Qual é a lógica? Querem preservar esse (e tantos outros) assassino? E minhas filhas? Quem preserva?
Já que não tenho direito ao pacato ir e vir, que elas tenham. Que haja uma proteção para isso e que respeitem os cidadãos que por algum motivo trabalham na TV, cinema, teatro, mas que não optaram/compactuam dessa maluquice sem limite que virou as nossas (de todos nós) vidas.
Aproveito para agradecer aos vizinhos que me alertaram e peço aos outros que não cedam a esse assédio desqualificado e desonroso. Que nós consigamos nos manter à parte disso tudo, preservando a essência natural dos moradores desse bairro. Somos especiais por morarmos num lugar tão maravilhoso. Independente de QUEM somos”.
Por Tiago Cordeiro (site comunique-se)